Saímos bem cedo de San Pedro e subimos o Rio Grande até o povoado de Machuca. (Apesar de mais difícil, acho sempre mais bonito fazer a trilha subindo o rio.) O link para o álbum é seguinte:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.642270302559842&type=1&l=885c7b3b49
Trilhas e Montanhas
domingo, 21 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
Escalada ao Licancabur - 09/08/2014
O grande dia havia chegado. Escalar o Licancabur era um sonho acalentado desde 2009, quando fomos pela primeira vez a San Pedro de Atacama, no Chile. Tudo estava pronto. Na semana anterior havíamos feito algumas trilhas e escalado outros vulcões para ganhar condicionamento a altitudes progressivamente maiores, chegando a 6000m no Sairecabur. Apesar de estarmos no inverno, o tempo estava perfeito, sem vento e muito sol como ocorre em quase todos os dias do ano neste deserto que é um dos mais secos do mundo.
Saímos de manhã do Explora em direção a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa no lado boliviano, onde dormiríamos num refúgio na base do Juriques a 4500m de altitude. Levamos praticamente o dia todo para vencer as complicações das polícias fronteiriças, e um bloqueio preventivo da estrada devido à neve que caíra na noite anterior. Ao chegarmos ao refúgio, aproveitamos o final do dia para uma caminhada às margens da Laguna Blanca. A superfície estava congelada e assim, só assim, pudemos “caminhar sobre as águas”.
No dia seguinte saímos bem cedo e às 5h30 começamos a escalada a 4600m, liderados por Gonzalo Cruz e Andrés Perez, guias de alta montanha do Explora, e por Serafim, nosso guia boliviano. Estava muito escuro e havia nevado durante a noite, o que facilitou um pouco no trecho inicial onde há muitas pequenas pedras soltas. Fazia muito frio e vestimos todas as camadas de proteção: duas meias e botas de alta montanha, nas pernas duas peles e uma calça impermeável, três peles no tronco e um corta vento com capuz, duas luvas (lã e impermeável), protetor de pescoço e gorro de lã. Mirna e eu levávamos mochilas que deviam pesar em torno de 5 quilos (1,5 litros de água, frutas secas, castanhas, as máquinas fotográficas, lanternas, etc.). Gonzalo e Andrés deviam estar com mochilas de (impressionantes) 10 – 15 quilos cada um. Por volta de 7h00 começou a clarear e a visão que se revelou foi a de uma das paisagens mais bonitas que vi na vida. Mirna registrou essas fotos.
O ritmo era muito bom e ultrapassamos rapidamente a cota de 5000m quando então entramos na camada de nuvens e as coisas começaram a se complicar. O terreno ficou mais íngreme e as pedras soltas eram bem maiores que no início da trilha. Como a neve esconde as irregularidades do terreno ficou mais difícil achar bons apoios para os pés e bastões de escalada. Serafim ia à frente abrindo caminho e nós andávamos atrás pisando exatamente onde ele havia pisado. Um pouco depois começou a nevar e a ventar mais forte. Era uma neve cristalizada em forma dendrítica que nos atingia o rosto como grãos de areia numa tempestade de vento.
Estávamos a cerca de 5200m de altitude quando comecei a sentir os mesmos sintomas de exaustão física que senti na escalada ao Sairecabur, provavelmente devido a uma condição de hipoglicemia causada pela metformina para controle de meu índice glicêmico. É uma sensação de cansaço extremo, comparável aos sintomas sentia tinha quanto tive uma mononucleose e dormia 12 horas por dia. Avisei Gonzalo de meu estado e ele, muito experiente, começou a me acompanhar de perto. Eu só conseguia me movimentar de forma terrivelmente lenta, apesar de não sentir falta de ar ou fadiga ou dores musculares. Pouco depois pedi para darmos uma parada. Acho que minha condição era muito aparente para todos porque sem falar nada Andrés e Gonzalo tomaram várias providências. Mirna aliviou minha mochila passando a máquina fotográfica e uma das garrafas de água para a sua mochila. (Super Mirna, a “Máquina Eslovena !”) Tomamos mate de coca, vesti polainas para proteger melhor da neve e ingeri um gel energético que fez toda a diferença. É um composto de glicose, proteína e cafeína que (suponho) me tirou da hipoglicemia. O efeito foi quase imediato e passei a me sentir muito melhor, retomando o mesmo ritmo do início da escalada. Só entendi esse processo depois que voltei ao Brasil em consulta o Dr. Octávio, cardiologista. O fato é que eu deveria simplesmente ter parado com a metformina nesses dias de esforço muito intenso.
Continuamos subindo por um bom tempo num ritmo bom e constante. Depois de ter hiperventilado no Sairecabur eu procurava respirar profundamente e prendia rapidamente o ar dentro dos pulmões. Chegamos rapidamente a 5600m de altitude quando paramos novamente para um breve descanso. Começamos então considerar as possibilidades, pois nosso limite de tempo era chegarmos ao cume até as 13h00 horas e já eram 11h30. Serafim estava preocupado com a possibilidade da neve impedir a vinda do carro que nos levaria de volta ao abrigo quando descêssemos. A visibilidade era de menos de 50 metros, o que muito provavelmente nos impediria até mesmo de ver a lagoa no fundo da cratera. E não sei se foi a perda de temperatura por estar parado ou se o efeito do gel energético passou e voltei a ficar hipoglicêmico, mas o fato é que a sensação de cansaço extremo voltou com tudo. Apesar de faltarem apenas 300m de desnível num trecho de aproximadamente 600m de extensão, no estado em que estava levaríamos bem mais do que 45min, principalmente porque ainda devíamos passar por uma área de grandes boulders parcialmente cobertos pela neve. Eu não queria desistir alí. Não tão perto do cume. Não depois de tanto esforço para nos aclimatar, sem falar nos treinamento físico nos meses anteriores. Não depois de sonharmos por tantos anos com esse dia... Mas desisti.
Conforme a tradição, trouxemos pequenas pedras (“mensagens”) do cume de cada montanha ou vulcão que escalamos durante a aclimatação (Kimal, Cerro Toco, Lascar e Sairecabur) e “entregamos” em reverência ao Licancabur. Gonzalo abriu um pequeno buraco no chão onde colocamos as mensagens, ofertamos mate de coca e cada um de nós disse algumas palavras. Levamos três horas para voltar ao início da trilha onde o guarda-reserva nos esperava de carro. Voltamos direto para San Pedro e o incrível é que vimos o tempo abrir completamente. Ao chegarmos ao Explora fomos presenteados com um magnífico por do sol. A luz avermelhada iluminava a face nevada do Licancabur que refletia para a camada de nuvens estacionada sobre seu cume. É incrível imaginar que poucas horas atrás estávamos imersos nessas mesmas nuvens e tivemos que voltar.
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